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Caminhando solta nessa calçada larga, pisando firme, sentindo as plantas dos pés refestelarem-se, nessa tarde de domingo besta. Tudo parece ter uma dimensão diferente hoje. Cada uma das árvores que vencem o cimento duro calculadas em seus quadrados de vida, parecem mais verdes e se fazem tão especiais por folhagens menores ou maiores, mais grossas, troncos finos e delgados, outros tantos agressivos disputando com os postes volume e atenção. O céu num azul de comer de colher, nuvens espaçadas rindo da terra abafada. As pessoas, a natureza da cidade de ninguém...
O sei lá quem, indefinido homem de cabelos longos, peito nu, pernas longas afastando as pernas como quem quisesse defender um espaço que já não mais o pertence a algum tempo. A senhorinha de cabelos brancos, cenho indecifrável com ritmo de salsa, o casal afoito que se beija com descrédito pelo amanhã, o irritante descompromisso do skatista atravessando o caminho dos passantes, as mãos entrelaçadas de veias velhas de amor e compromisso, a menina de cabelos revoltados correndo de seus pais em caretas risíveis. E seguem baixos, médios, altos, enfeitados, gordos, estranhos, magros, desleixados, rotos, perfumados, falantes, articulados, cabisbaixos...gente. Aos montes, em grupos ou sós, gente. Barulhenta ou silenciosa, gente. Faço parte dessa turba, surpreendemente.

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