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Caminhando solta nessa calçada larga, pisando firme, sentindo as plantas dos pés refestelarem-se, nessa tarde de domingo besta. Tudo parece ter uma dimensão diferente hoje. Cada uma das árvores que vencem o cimento duro calculadas em seus quadrados de vida, parecem mais verdes e se fazem tão especiais por folhagens menores ou maiores, mais grossas, troncos finos e delgados, outros tantos agressivos disputando com os postes volume e atenção. O céu num azul de comer de colher, nuvens espaçadas rindo da terra abafada. As pessoas, a natureza da cidade de ninguém...
O sei lá quem, indefinido homem de cabelos longos, peito nu, pernas longas afastando as pernas como quem quisesse defender um espaço que já não mais o pertence a algum tempo. A senhorinha de cabelos brancos, cenho indecifrável com ritmo de salsa, o casal afoito que se beija com descrédito pelo amanhã, o irritante descompromisso do skatista atravessando o caminho dos passantes, as mãos entrelaçadas de veias velhas de amor e compromisso, a menina de cabelos revoltados correndo de seus pais em caretas risíveis. E seguem baixos, médios, altos, enfeitados, gordos, estranhos, magros, desleixados, rotos, perfumados, falantes, articulados, cabisbaixos...gente. Aos montes, em grupos ou sós, gente. Barulhenta ou silenciosa, gente. Faço parte dessa turba, surpreendemente.

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Luando

Quero a noite plácida O beco com saídas O parque de diversão Quero a frase precisa A tragédia na troça O brilho na escuridão Quero aquele compromisso ligeiro O sonho no travesseiro A profunda inspiração Pulsando em meu peito O princípio e o meio Sem qualquer direção

PRETÉRITO IMPERFEITO ou SEMI BREVE

Não era tarde Cedo também não era Embora 'inda não fosse tempo Não permitindo o relógio geral ...o anacronismo de que são feitas as almas... partiu-se pois o que é em nome do que deve ser Não seja a Lua Satélite de toda noite Puro e só Ciclo inalcansável Nem seja a Terra Romântico Saturno de alianças intocáveis Não sejam descobertos os mistérios (?) Não seja a filosofia vã (?) Sim. Permita-se a Via Láctea! E que por ela possa brincar um anjo Em piruetas e cânticos de amor que Por hora Exercitam o "adeus!... olá!" Oferecido ao astro que o convida a morar Na amizade de sua luz adversa Assim repousa o último verso. Não fosse o relógio Não fosse o relógio Que marca o tempo de não ser dois Não fosse o relógio Que marca o tempo de não ser há mais tempo Não fosse o relógio.... Eu te teria Como tenho agora na minha eternidade imaginária Eu te beijaria Como me beijam os infinitos espasmos fugitivos da tua ausência Eu te amaria... ....

No calor da emoção

Transpirando em bicas, atravessava a rua como se o outro lado pudesse jamais ser alcançado. O corpo amolecido e a visão turva confirmavam essa possibilidade. O asfalto e suas ameaçadoras ondas fervilhando sob mim remetiam à imagem infantil de um personagem que vai aos passos derretendo até restar uma poça, um líquido quente e irreconhecível. Surpreendendo minhas expectativas depois do percurso assustadoramente longo, consegui o inimaginável. Com o coração ainda aos pulos com a temerosa ameaça de não voltar a ver entes queridos ou até os próprios ignorarem qual foi meu patético fim, fui tomada por uma brisa de alívio. Uma refrescante, desejada brisa que descobri vir de uma loja logo em frente. Sem titubear, rompi a porta de vidro entreaberta e num paraíso refrigerado, misturavam-se todos os tipos, tamanhos e cores de sapatos. Sim, lá se foi minha racional e controlada técnica de consumo. Numa espécie de recompensa ao espaço que me havia proporcionado tamanho frescor, desatei a juntar ...